Moedas perto do Vaticano revelam a “Pequena Inglaterra” de Roma medieval

Uma descoberta arqueológica a poucos passos do Vaticano está mudando a imagem que os historiadores tinham da Roma medieval. Vinte moedas anglo-saxãs, encontradas em escavações no Palazzo della Rovere, são a primeira evidência material clara de uma comunidade inglesa que viveu e trabalhou na cidade há mais de mil anos.

O que a descoberta mostra

  • Foram identificados 19 pennies de prata e um meio penny, cunhados entre aproximadamente 900 e 970.
  • As moedas apareceram junto a vestígios de trabalho com couro, osso e metal.
  • O conjunto indica comércio cotidiano, e não apenas uma doação isolada à Igreja.
  • A comunidade conhecida como Schola Saxonum provavelmente reunia peregrinos, comerciantes, artesãos e moradores permanentes.

Uma escavação entre o Vaticano e o rio Tibre

As peças foram encontradas sob o jardim murado do Palazzo della Rovere, edifício renascentista localizado na Via della Conciliazione, a principal avenida de acesso à Praça de São Pedro. As escavações arqueológicas são realizadas antes da transformação do complexo em hotel.
O lugar está dentro da área historicamente associada ao bairro dos saxões, entre a basílica e o rio Tibre. O próprio nome moderno Lungotevere in Sassia, usado no trecho da margem próximo ao Vaticano, preserva a memória dessa presença estrangeira.
Documentos medievais já descreviam uma comunidade inglesa em Roma. O que faltava era um conjunto arqueológico capaz de mostrar como ela funcionava no dia a dia. Segundo a Universidade de Cambridge, as moedas e os vestígios de oficinas oferecem justamente essa evidência física.

O que as 20 moedas anglo-saxãs revelam

O conjunto reúne 19 pennies de prata e um meio penny. As peças foram cunhadas em diferentes pontos da Inglaterra, incluindo East Anglia, Kent, Londres e as Midlands Ocidentais, durante os reinados de Eduardo, o Velho, Æthelstan e Eadred — filho e netos de Alfredo, o Grande.
Quatorze moedas apareceram em dois pequenos grupos dentro de fossas de descarte e estavam fundidas depois de mais de um milênio no solo. Outras seis foram encontradas dispersas nas proximidades. Para os pesquisadores, essa distribuição é especialmente importante: moedas perdidas em diferentes pontos são compatíveis com compras e pagamentos cotidianos.

Evidência Interpretação provável
Moedas espalhadas Uso em comércio e perdas acidentais ao longo do tempo
Meio penny Pequenos pagamentos em um ambiente comercial ativo
Couro, osso e metal Oficinas e artesãos trabalhando no bairro
Cunhagens de regiões diferentes Fluxo contínuo de pessoas e dinheiro vindo da Inglaterra

O professor Rory Naismith, especialista em história monetária medieval de Cambridge, afirma que mais moedas anglo-saxãs desse período foram encontradas em Roma do que moedas papais. A comparação sugere que um volume relevante de dinheiro inglês circulava pela cidade.

A Schola Saxonum não era uma escola comum

Apesar do nome, a Schola Saxonum não correspondia a uma escola no sentido moderno. Fundada no século VIII, ela funcionava como uma combinação de hospedaria, comunidade religiosa, centro de apoio e bairro para pessoas vindas das ilhas britânicas.
Peregrinos viajavam a Roma para visitar os túmulos dos apóstolos e participar de cerimônias religiosas. Comerciantes, representantes da realeza e clérigos também faziam a longa travessia. Parte dessas pessoas permanecia na cidade, formando uma comunidade estável próxima à antiga Basílica de São Pedro.
Registros históricos mencionam uma igreja dedicada à Virgem Maria e o sepultamento de Burgred, rei da Mércia exilado após ataques vikings. As novas escavações acrescentam oficinas, comércio e dinheiro em circulação a esse retrato antes construído quase exclusivamente por textos.

Por que a moeda inglesa podia circular em Roma?

Visitantes estrangeiros normalmente precisavam trocar seu dinheiro por moeda papal. A presença repetida de pennies ingleses em um contexto comercial levanta a hipótese de que os moradores da Schola Saxonum tinham autorização especial para continuar usando sua própria moeda.
Uma possível origem desse privilégio remonta ao ano 883, quando o papa Marino I concedeu ao bairro inglês, a pedido de Alfredo, o Grande, isenção de tributos e pedágios. Os pesquisadores tratam a relação como uma hipótese histórica apoiada pelas moedas — não como uma regra já comprovada em todos os detalhes.
O tratamento diferenciado também pode refletir os laços religiosos entre Roma e a Inglaterra após a missão enviada pelo papa Gregório no final do século VI para fortalecer o cristianismo entre os anglo-saxões.

Por que esse achado é diferente de um tesouro

Roma já havia fornecido grandes depósitos de moedas inglesas, incluindo um conjunto de centenas de peças descoberto no Fórum Romano no século XIX. Esses tesouros podem estar ligados a remessas organizadas, presentes ou contribuições religiosas.
As 20 moedas do Palazzo della Rovere contam outra história. Elas aparecem junto a áreas de trabalho e descarte, num espaço de aproximadamente meio campo de futebol. Por isso, ajudam a reconstruir a economia cotidiana de um bairro multicultural: quem comprava, produzia, vendia e vivia perto de São Pedro.

É possível visitar a “Pequena Inglaterra” de Roma?

O achado está em uma área de escavação ligada a uma obra e não deve ser confundido com uma nova atração aberta ao público. As fontes consultadas não informam que as moedas estejam expostas nem anunciam visitação ao sítio arqueológico.
Viajantes interessados nessa história podem, no entanto, observar a geografia que a explica: a Via della Conciliazione, a Praça de São Pedro, o Borgo e o Lungotevere in Sassia ficam próximos entre si. O passeio ajuda a perceber como o Tibre, as antigas pontes e a basílica transformaram a região em ponto de chegada de peregrinos de toda a Europa.

Antes de incluir o local no roteiro

  • Não entre em áreas isoladas por obras ou escavações.
  • Consulte os canais oficiais do Palazzo della Rovere e dos museus de Roma para futuras exposições.
  • Use o achado como contexto histórico para caminhar pelo Borgo e pela margem do Tibre.
  • Evite anúncios de “acesso exclusivo” que não indiquem uma instituição responsável.

Uma Roma medieval mais internacional

A descoberta ajuda a corrigir uma visão simplificada da cidade após o fim do Império Romano do Ocidente. Roma continuou conectada a rotas religiosas, diplomáticas e comerciais que alcançavam regiões distantes.
Os pennies não são espetaculares pelo tamanho ou pela aparência. Seu valor está no contexto: pequenas perdas acumuladas por moradores e compradores revelam uma comunidade internacional trabalhando às margens do Tibre. É uma espécie de mapa econômico da “Pequena Inglaterra” medieval, preservado no solo por mais de mil anos.

Fontes: Universidade de Cambridge e Archaeology Magazine, do Archaeological Institute of America. Informações de visitação podem mudar; consulte canais oficiais antes de viajar.


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