Mundo, Cultura e Turismo • 28 de outubro de 2026
Após reunião internacional realizada de 19 a 23 de outubro em Kuching, na Malásia, o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) divulgou uma declaração com cinco prioridades para proteger patrimônios culturais diante de desastres, mudanças climáticas e conflitos.
O documento coloca comunidades locais, povos indígenas, conhecimento tradicional e cooperação internacional no centro das decisões. Mais do que conservar monumentos, a proposta é preservar práticas, memórias e vínculos entre pessoas e lugares.

O que é a Declaração de Kuching e quando foi anunciada?
A Declaração de Kuching foi divulgada em 23 de outubro de 2026 pelo ICOMOS, organização internacional dedicada à conservação do patrimônio cultural. A iniciativa foi apresentada no contexto da 22ª Assembleia Geral do conselho, realizada entre 19 e 23 de outubro em Kuching, no estado de Sarawak, na Malásia.
O texto aborda o patrimônio vivo como algo que não se limita a edifícios antigos ou objetos de museu. Ele envolve conhecimentos, práticas sociais, paisagens, ecossistemas, histórias familiares e identidades transmitidas entre gerações. A declaração afirma que crises climáticas, desastres e conflitos exigem respostas preparadas com antecedência, e não apenas reparações depois de danos irreversíveis.
É importante distinguir o alcance da medida: trata-se de um compromisso e de um chamado à ação do ICOMOS, não de uma nova lei internacional nem de uma decisão automática de tombamento da UNESCO. A implementação depende de governos, instituições, especialistas e comunidades.
Data: 23 de outubro de 2026.
Local: Kuching, Sarawak, Malásia.
Organização: Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS).
Foco: patrimônio vivo, prevenção de riscos, participação comunitária e cooperação.
As cinco prioridades para proteger o patrimônio cultural
O documento apresenta cinco frentes de ação. Elas podem orientar projetos de conservação, planejamento público, respostas a emergências e políticas de turismo cultural. Abaixo, os pontos foram traduzidos e contextualizados em linguagem acessível, sem reproduzir integralmente a declaração original.
1. Transformar conhecimento em ações práticas
O ICOMOS pede que pesquisas e experiências de campo sejam convertidas em ferramentas úteis, políticas públicas responsivas e soluções ajustadas às realidades socioeconômicas de cada comunidade. Na prática, isso significa que um plano de preservação precisa funcionar no território — não apenas existir em relatórios.
2. Dar poder de decisão às comunidades
Povos indígenas, moradores, jovens e guardiões do patrimônio devem participar formalmente das decisões institucionais, da preparação para desastres e da recuperação após crises. Essa prioridade busca evitar projetos que preservem a aparência de um lugar, mas afastem as pessoas que sustentam sua cultura.
3. Compartilhar saberes entre regiões
O documento recomenda integrar conhecimento tradicional e indígena à pesquisa científica e ampliar o intercâmbio entre disciplinas e regiões. Técnicas locais de construção, manejo de paisagens e transmissão oral podem contribuir para soluções de conservação e adaptação climática.
4. Preparar instituições para enfrentar crises
Profissionais e comunidades precisam de recursos, treinamento e infraestrutura de comunicação para lidar com enchentes, incêndios, eventos extremos e conflitos armados. O objetivo é fortalecer capacidade de resposta e recuperação, reconhecendo que nem todos os danos podem ser evitados.
5. Cobrar resultados e fortalecer parcerias
A declaração propõe ações transparentes e colaborativas, com metas e critérios que permitam acompanhar resultados. O ICOMOS defende que os compromissos possam ser monitorados e compartilhados em sua rede internacional.
Leia mais: como isso afeta o turismo
O que significa patrimônio vivo?
Quando se fala em patrimônio cultural, a imagem mais comum é a de um castelo, igreja ou centro histórico. Esses bens materiais são relevantes, mas a vida cultural de um lugar também depende de pessoas, práticas e significados. Uma celebração comunitária, um saber artesanal, uma tradição de navegação fluvial ou um modo de cultivar a terra podem fazer parte desse conjunto de valores.
Por isso, a expressão patrimônio vivo enfatiza continuidade e transformação. Tradições não precisam ficar congeladas para ser respeitadas. O desafio está em permitir que comunidades mantenham suas práticas e as adaptem às necessidades atuais, sem perder autonomia e memória.
A UNESCO destacou em outubro de 2026 o Dia Internacional do Patrimônio Cultural Imaterial, celebrado em 17 de outubro, e incentivou atividades de valorização do patrimônio vivo durante todo o mês. As iniciativas da UNESCO e do ICOMOS são distintas, mas compartilham a preocupação com a transmissão cultural e a participação social.

Turismo cultural: preservar a cidade sem afastar seus moradores
O debate interessa diretamente ao turismo. Um destino pode atrair visitantes pela arquitetura, culinária, festivais e paisagens, mas também pode sofrer pressão sobre moradia, infraestrutura e costumes quando o fluxo turístico cresce sem planejamento. A declaração não apresenta um novo sistema de certificação turística; oferece princípios que podem orientar decisões mais inclusivas.
Uma estratégia responsável pode envolver participação de moradores no desenho de roteiros, contratação de guias locais, valorização de artesãos, gestão de resíduos e limites de visitação quando tecnicamente necessários. A adequação de cada medida depende das condições do destino, de legislação local e de diálogo com a comunidade.
Em conferência internacional realizada em abril de 2026, a UNESCO discutiu turismo cultural sustentável em cidades históricas, reforçando a ideia de que centros urbanos são ambientes habitados, e não apenas cenários para visitantes.
| Desafio | Risco para o patrimônio | Resposta possível |
|---|---|---|
| Eventos climáticos extremos | Danos a edifícios, acervos e paisagens | Mapeamento de risco e preparação comunitária |
| Turismo sem planejamento | Pressão sobre espaços e práticas locais | Gestão participativa de visitantes |
| Perda de saberes tradicionais | Ruptura da transmissão entre gerações | Projetos conduzidos por mestres e jovens |
| Conflitos e deslocamentos | Destruição e perda de referências culturais | Documentação, proteção e recuperação coordenadas |
| Projetos sem prestação de contas | Baixa efetividade e exclusão social | Indicadores, transparência e avaliação |
Por que o tema importa para o Brasil?
O Brasil reúne cidades históricas, territórios indígenas, comunidades tradicionais, sítios arqueológicos, paisagens culturais e manifestações populares. A proteção desse patrimônio exige articulação entre instituições públicas, pesquisadores, organizações sociais e pessoas que vivem nos territórios.
As prioridades de Kuching podem servir como referência para discutir prevenção de incêndios e enchentes, participação de comunidades em projetos turísticos e registro de conhecimentos transmitidos oralmente. Isso não significa que o ICOMOS tenha anunciado um programa brasileiro específico ou destinado novos recursos ao país. O documento é uma convocação internacional que ainda precisa ser traduzida em iniciativas concretas.
Para ampliar a leitura, veja a reportagem do VSFast sobre o estudo da UNESCO e da UICN que analisou a presença do Patrimônio Mundial nos relatórios de biodiversidade. O levantamento mostra outra dimensão do desafio: integrar cultura e natureza nas políticas públicas.
Como viajar com respeito ao patrimônio vivo
O viajante não precisa ser especialista para contribuir. Antes de visitar um centro histórico ou participar de uma celebração tradicional, vale pesquisar se há regras de fotografia, restrições de acesso e orientações definidas pela própria comunidade. Em locais religiosos ou rituais, pedir permissão pode ser mais importante do que registrar a imagem perfeita.
- Busque informações oficiais: confirme horários, regras de visitação e eventuais fechamentos com instituições responsáveis.
- Priorize a economia local: quando possível, escolha guias, artesãos e pequenos negócios da comunidade.
- Respeite limites: não entre em áreas restritas nem retire objetos naturais ou históricos.
- Evite simplificações: procure compreender a história do lugar por meio de vozes locais.
- Compartilhe com responsabilidade: identifique corretamente locais e pessoas e não divulgue informações sensíveis sobre sítios vulneráveis.
Em Kuching, o rio Sarawak, as embarcações tradicionais e o patrimônio urbano oferecem exemplos de como paisagem, vida cotidiana e memória podem coexistir. As fotografias desta reportagem mostram a cidade em anos anteriores, e não a assembleia de outubro de 2026.
Perguntas frequentes
O ICOMOS faz parte da UNESCO?
Não são a mesma organização. O ICOMOS é um conselho internacional independente que atua no campo da conservação e tem papel consultivo em assuntos de patrimônio, inclusive no sistema do Patrimônio Mundial.
A Declaração de Kuching cria obrigações legais imediatas?
Não. Ela apresenta compromissos e prioridades para orientar atores públicos, privados e comunitários. A adoção de medidas concretas depende de decisões posteriores.
Quando ocorreu a assembleia?
A 22ª Assembleia Geral do ICOMOS foi realizada em Kuching, Malásia, de 19 a 23 de outubro de 2026. A declaração foi publicada em 23 de outubro.
O que muda para quem visita destinos culturais?
Não há uma nova regra global para turistas. O documento reforça princípios de conservação, respeito às comunidades e preparação para riscos que podem influenciar políticas locais no futuro.
Acompanhe as prioridades diretamente no site do ICOMOS, onde há versões oficiais da declaração e acesso ao texto completo em PDF.
Ler a Declaração de KuchingFontes, data e créditos
Reportagem original elaborada em 28 de outubro de 2026 a partir de documentos públicos. ICOMOS, 23/10/2026 — Declaração de Kuching; UNESCO, 09/10/2026 — Patrimônio Cultural Imaterial; UNESCO/UNRIC, 2026 — Turismo cultural sustentável. Fotos licenciadas em CC BY-SA 4.0 com créditos nas legendas; ambas são ilustrativas e anteriores ao encontro. Este artigo não reproduz o texto integral da declaração.
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