MUNDO, CULTURA E TURISMO · 26 DE OUTUBRO DE 2026
Uma declaração internacional publicada em 23 de outubro propõe mais proteção para cidades históricas, tradições e paisagens culturais diante de desastres e conflitos. O documento foi divulgado após a assembleia do ICOMOS em Kuching, na Malásia. Entenda quem participa, quais medidas foram defendidas e por que a notícia interessa também a viajantes e gestores brasileiros.
Em resumo: é um compromisso técnico e institucional, não um tratado que cria automaticamente novas obrigações legais. A eficácia dependerá de políticas, recursos e ações concretas dos envolvidos.
Leitura estimada: 8 minutos · Reportagem explicativa: baseada em documentos oficiais do ICOMOS e da UNESCO, consultados em 26/10/2026.

Declaração de Kuching: o que aconteceu em outubro de 2026
Em 23 de outubro de 2026, o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) publicou a Declaração de Kuching. O texto foi formulado no contexto de sua 22ª Assembleia Geral e simpósio científico, realizados na cidade de Kuching, estado de Sarawak, na Malásia.
A proposta central é que a proteção do patrimônio cultural não se limite a fachadas, monumentos e objetos. Ela também precisa considerar os conhecimentos transmitidos entre gerações, práticas comunitárias, paisagens, ecossistemas e identidades associados a esses lugares. A organização argumenta que desastres naturais, mudanças climáticas e conflitos podem interromper essa continuidade.
O ICOMOS é uma organização internacional independente de especialistas que atua como órgão consultivo do Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO para bens culturais e mistos. Isso não significa que o texto de Kuching tenha sido aprovado como uma nova lei da UNESCO, nem que represente a inscrição de novos lugares na Lista do Patrimônio Mundial.
A programação oficial da assembleia ocorreu de 17 a 23 de outubro, segundo a página de eventos do ICOMOS. Em 16 de outubro, a entidade informava 1.593 inscrições de 113 países; esse número é de inscritos na ocasião, não uma contagem auditada de participantes presentes.
Os cinco compromissos defendidos pelo ICOMOS
A declaração dirige um chamado a governos, organizações internacionais, universidades, entidades civis e responsáveis locais pelo patrimônio. As prioridades podem ser resumidas em cinco frentes:
1. Transformar pesquisa em medidas práticas
O documento pede que estudos acadêmicos se convertam em ferramentas de trabalho, políticas públicas responsivas e procedimentos que levem em conta as condições sociais e econômicas de cada comunidade. Um plano de conservação que só existe no papel tem alcance limitado quando há enchentes, incêndios ou pressão imobiliária.
2. Dar voz real às comunidades
A participação de povos indígenas, moradores, jovens e guardiões de tradições deve fazer parte das decisões institucionais, do preparo para emergências e da recuperação após crises. Isso é diferente de apenas consultar comunidades quando um projeto já está definido.
3. Combinar conhecimento tradicional e científico
A organização defende intercâmbio entre regiões e disciplinas, incorporando saberes locais às pesquisas. Técnicas tradicionais de construção, rotas culturais, usos do território e práticas de manejo podem ajudar a identificar riscos e soluções adequadas.
4. Preparar equipes e instituições para crises
A declaração destaca a necessidade de financiamento, treinamento, comunicação e planos de resposta para enfrentar efeitos climáticos, desastres e conflitos armados. Isso inclui registrar acervos, definir prioridades de salvamento e estabelecer redes de apoio antes da emergência.
5. Medir resultados e cobrar responsabilidade
Parcerias devem ter metas claras, transparência e critérios que permitam acompanhar a execução. Sem indicadores, é difícil saber se o compromisso trouxe melhorias concretas para a conservação e para as pessoas que dependem do patrimônio.
O ponto decisivo: o ICOMOS propõe compromissos e convida parceiros a apoiá-los. A publicação, por si só, não anuncia verbas aprovadas, novos tombamentos ou obrigações legais aplicáveis a todos os países.
O que a declaração não determina — e por que isso importa
A Declaração de Kuching é um documento de orientação e mobilização. Ela não substitui as leis nacionais de proteção cultural, não concede automaticamente o título de Patrimônio Mundial e não cria uma taxa para turistas. A adoção de suas recomendações depende de decisões posteriores de governos, instituições e comunidades.
Também é importante distinguir as funções: a UNESCO mantém a Convenção do Patrimônio Mundial e o comitê intergovernamental toma decisões sobre inscrições; o ICOMOS fornece pareceres e conhecimento técnico para bens culturais e mistos. O texto recém-publicado pertence à atuação do ICOMOS, ainda que dialogue com objetivos mais amplos de conservação internacional.
O impacto poderá ser observado em ações verificáveis: planos de prevenção publicados, orçamento destinado à proteção, participação comunitária documentada, treinamento de equipes e resultados de conservação divulgados ao público.
Turismo cultural: oportunidades e limites
Para quem viaja, o debate é relevante porque monumentos e áreas naturais não são cenários isolados. São também locais de trabalho, moradia, culto, memória e atividade econômica. Um turismo mal administrado pode aumentar o desgaste físico, a pressão sobre serviços e a descaracterização de tradições; por outro lado, visitas bem planejadas podem apoiar empregos e manutenção.
O Programa de Turismo Sustentável do Patrimônio Mundial da UNESCO recomenda integrar a gestão do turismo à proteção dos lugares e à participação dos interessados. A ideia se conecta à declaração, embora sejam iniciativas diferentes.
- Antes da viagem: consulte o site oficial do parque, museu ou órgão de patrimônio; verifique regras de acesso, limites de visitantes e alertas.
- Durante a visita: contrate serviços locais responsáveis, respeite espaços comunitários e não entre em áreas restritas.
- Ao fotografar: peça autorização quando a imagem envolver pessoas, rituais ou ambientes culturalmente sensíveis.
- Depois da viagem: avalie se sua visita apoiou atividades locais e ajudou a preservar, em vez de apenas consumir, a experiência.

Por que Kuching e Sarawak entraram no centro do debate
Kuching sediou a primeira assembleia geral do ICOMOS realizada no Sudeste Asiático. O encontro combinou sessões técnicas com atividades sobre museus, artesanato, lugares históricos e comunidades de Sarawak, conforme a programação oficial.
A região abriga o Parque Nacional Gunung Mulu, inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em 2000 por seus valores naturais. A UNESCO descreve uma paisagem de florestas tropicais, formações calcárias e extensas cavernas. É um exemplo de como turismo, proteção ambiental, pesquisa e gestão territorial se cruzam.
Essa paisagem ajuda a entender o foco da assembleia: preservar patrimônio significa cuidar de relações entre território, natureza e pessoas. Mas o parque não foi “criado” ou “reconhecido” pela Declaração de Kuching de 2026; seu status é anterior.
O que cidades e destinos brasileiros podem aprender
No Brasil, centros históricos, festas populares, paisagens culturais e edifícios antigos enfrentam desafios distintos. Em cidades sujeitas a chuvas intensas, por exemplo, a prevenção envolve drenagem, mapeamento de riscos, manutenção e protocolos para proteger documentos e acervos. Em regiões turísticas, também é importante equilibrar circulação de visitantes e qualidade de vida dos moradores.
Um caminho prático, coerente com os princípios do ICOMOS, seria construir um inventário atualizado dos bens e práticas culturais, mapear vulnerabilidades com participação comunitária, definir responsáveis por emergências e publicar relatórios periódicos de conservação. São possíveis aplicações das recomendações, não medidas já aprovadas pelo governo brasileiro.
O tema se conecta a outras reportagens do VSFast: veja como a UNESCO testa ferramentas climáticas em Santo Domingo, entenda os novos patrimônios reconhecidos em 2026, incluindo os Teatros da Amazônia, e acompanhe a evolução do turismo mundial.
Como acompanhar se a declaração produzirá resultados
O próximo teste será verificar se o chamado de Kuching se transforma em projetos com orçamento, equipes, cronogramas e participação local. É recomendável acompanhar tanto a comunicação oficial do ICOMOS quanto os órgãos responsáveis por cada sítio. A existência de um compromisso público não garante sua execução.
Quer conferir o documento original? A página oficial oferece a íntegra da declaração em inglês, francês e espanhol. Consulte as prioridades, compare com projetos de conservação da sua região e acompanhe anúncios posteriores de implementação.
Fontes oficiais, metodologia e créditos
- ICOMOS — Declaração de Kuching, publicada em 23/10/2026: texto-base e cinco prioridades.
- ICOMOS — Assembleia Geral de 2026: local, programação e número de inscritos em 16/10.
- ICOMOS — missão e atribuições: papel consultivo no Patrimônio Mundial.
- UNESCO — Parque Nacional Gunung Mulu: dados oficiais sobre a área natural.
- UNESCO — Turismo Sustentável: diretrizes de gestão turística e conservação.
Apuração encerrada em 26 de outubro de 2026. As imagens são fotografias de arquivo de Kuching e de Gunung Mulu, não registros da assembleia de 2026. Autores, páginas originais e licenças Creative Commons estão indicados nas respectivas legendas. Não houve alteração das fotografias, além do redimensionamento automático de exibição pelo WordPress.
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