Coreia do Sul propõe orçamento recorde de 820,9 trilhões de won e amplia investimentos em IA

ÁSIA EM FOCO · ECONOMIA · INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

2 de novembro de 2026 · Redação VSFast · Atualidade internacional

Presidente Lee Jae-myung defende orçamento recorde para 2027, com recursos para chips, robótica e centros de dados. Plano ainda depende da Assembleia Nacional e enfrenta riscos fiscais e industriais.

Sede da Assembleia Nacional sul-coreana em Seul, vista da avenida
Assembleia Nacional da Coreia do Sul, onde o orçamento é debatido. Foto de arquivo de 2007: Alain Seguin / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0. Fonte da imagem.

SEUL, 2 de novembro de 2026. O presidente sul-coreano Lee Jae-myung defendeu nesta segunda-feira, diante da Assembleia Nacional, a aprovação de um orçamento recorde de 820,9 trilhões de won para 2027. A proposta reserva 21,3 trilhões de won — cerca de US$ 16 bilhões pela cotação usada na reportagem da Reuters — para inteligência artificial e três grandes projetos de semicondutores, IA física e centros de dados. O plano ainda depende de tramitação e aprovação parlamentar.

A iniciativa é uma aposta em transformar o ciclo favorável dos chips de memória em capacidade tecnológica de longo prazo. Ao mesmo tempo, levanta perguntas sobre o retorno dos investimentos, o fornecimento de eletricidade e a dependência de uma indústria que já responde por parcela excepcional das exportações do país.

Segundo a Reuters, em reportagem publicada em 2 de novembro, o gasto total proposto para 2027 representa alta de 12,8% sobre o orçamento-base de 2026. A administração havia apresentado os números em setembro; a novidade desta segunda-feira é o discurso presidencial pedindo apoio dos parlamentares e vinculando o plano à distribuição mais ampla dos benefícios do crescimento.

LER MAIS: entenda os valores e os riscos ↓

Quanto a Coreia do Sul pretende gastar em 2027?

O orçamento de 820,9 trilhões de won é uma proposta de despesa pública, não dinheiro já desembolsado. A apresentação oficial do Ministério do Planejamento e Orçamento da Coreia do Sul detalha prioridades como tecnologia, infraestrutura, apoio à juventude e segurança. A pasta informa que o conjunto de inteligência artificial e três megaprojetos passaria de 10,8 trilhões para 21,3 trilhões de won, aumento de 97,2%.

Isso não significa que todo o valor será destinado apenas a softwares de IA. O pacote inclui recursos para semicondutores, robótica e inteligência artificial aplicada ao mundo físico, centros de dados, energia, água e infraestrutura industrial. Portanto, a expressão “dobrar a verba de IA” deve ser lida como referência ao conjunto de investimentos anunciado.

O governo também projeta receitas totais de 880,8 trilhões de won. Receita orçamentária total e resultado fiscal não são equivalentes: diferentes contas, fundos e critérios entram na apuração do déficit. Por isso, não se deve simplesmente subtrair os dois valores e chamar a diferença de superávit fiscal.

Retrato de Lee Jae-myung, presidente da Coreia do Sul, fotografado em 2025
Lee Jae-myung em fotografia de arquivo de junho de 2025, não do pronunciamento de 2 de novembro de 2026. Crédito: Korea.net / Korean Culture and Information Service, CC BY-SA 2.0. Arquivo original.

Três megaprojetos: semicondutores, IA física e centros de dados

O primeiro eixo é a cadeia de semicondutores, com foco em manter a liderança sul-coreana em memórias e ampliar a capacidade de produção. Empresas como Samsung Electronics e SK Hynix ocupam posições centrais nesse mercado, especialmente no fornecimento de componentes para sistemas de inteligência artificial. Os recursos públicos se somariam a investimentos privados e não devem ser confundidos com o valor das fábricas planejadas pelas empresas.

O segundo eixo, a IA física, busca levar algoritmos para máquinas que atuam no mundo real: robôs, equipamentos industriais, veículos e linhas de montagem. Essa área depende não só de modelos de linguagem, mas também de sensores, sistemas de controle, segurança operacional e treinamento em ambientes reais.

O terceiro eixo são os centros de dados. Eles abrigam processadores, memórias, redes e sistemas de refrigeração necessários para treinar e executar modelos de IA. Sua expansão exige planejamento de energia, terrenos, conexão à rede elétrica, abastecimento de água e profissionais especializados. Um centro de dados anunciado não equivale automaticamente a uma instalação construída e operacional.

Módulo SOCAMM de memória da fabricante sul-coreana SK Hynix exposto em 2025
Módulo de memória da SK Hynix na Computex 2025. Foto de arquivo, não representa o orçamento de 2027. Crédito: 4300streetcar / Wikimedia Commons, CC BY 4.0. Arquivo original.

Por que os chips estão financiando a nova estratégia?

A procura mundial por infraestrutura de inteligência artificial impulsionou a indústria de memórias sul-coreana. Entre janeiro e outubro de 2026, as exportações do país somaram cerca de US$ 930 bilhões, segundo os números citados por Lee e pela Reuters. O governo considera possível superar US$ 1 trilhão no ano, mas a marca ainda não estava confirmada no momento do discurso.

O crescimento das vendas externas elevou resultados de fabricantes e arrecadação tributária, criando espaço para investimentos. Contudo, esse movimento também aumenta a exposição do país a mudanças na demanda global. A Reuters informou em 27 de outubro que o Banco da Coreia analisou um cenário pessimista no qual a desaceleração dos gastos globais com IA poderia reduzir exportações de chips em US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões frente a projeções anteriores. Trata-se de uma simulação de risco, não de perda já ocorrida.

O governo tenta usar o momento favorável para ampliar a capacidade de competir em tecnologias estratégicas e diversificar os ganhos econômicos. O sucesso dependerá de executar projetos no prazo, formar trabalhadores e evitar que os benefícios fiquem concentrados em poucos conglomerados ou regiões.

Vídeo: como é a estrutura interna de um microchip?

O vídeo educativo a seguir, produzido pela NISENet em 2014, mostra detalhes de um microchip antigo em ampliação. É material de contexto tecnológico e não registra o anúncio orçamentário de 2026.

Vídeo: NISENet, 2014. Licença CC BY 3.0, verificada no Wikimedia Commons. Reprodução por incorporação do canal original.

O fundo de 162,3 trilhões de won e a promessa de crescimento mais inclusivo

Outra peça importante do orçamento é o Future Response Fund, ou Fundo de Resposta ao Futuro, previsto em 162,3 trilhões de won. O desenho anunciado usa parte da receita extraordinária associada ao setor de semicondutores para apoiar atividades de crescimento, educação, desenvolvimento regional e políticas voltadas a jovens. O objetivo é criar reservas e instrumentos para períodos menos favoráveis.

Lee reconheceu que o aumento da riqueza gerada pela indústria tecnológica não alcança todos os grupos sociais na mesma proporção. Por isso, a proposta procura ligar investimentos produtivos a formação de talentos, oportunidades regionais e condições de vida. Isso é uma intenção de política pública: os resultados dependerão de regulamentação, execução e avaliação.

Em comunicado de setembro, o governo sul-coreano apresentou cinco prioridades, incluindo apoio à juventude, motores de crescimento e segurança. A alocação anunciada para jovens em diferentes etapas de desenvolvimento subiria de 28,2 para 43,3 trilhões de won.

Sala com armários de micro data center fotografado na Coreia do Sul em 2017
Instalação de micro data center em Daegu, Coreia do Sul, em 2017. Imagem de arquivo ilustrativa. Crédito: Dobecomputing / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Arquivo original.

Riscos: energia, inflação, concentração e ciclo de investimentos

A expansão de fábricas e centros de dados pode esbarrar em limitações de eletricidade, água, infraestrutura e mão de obra qualificada. Projetos industriais de grande escala exigem anos de planejamento; sem coordenação, o custo público pode crescer antes de os benefícios aparecerem.

Outro risco é macroeconômico. Uma expansão fiscal em ritmo acelerado pode aumentar pressões de preços ou estimular setores já aquecidos, dependendo da capacidade produtiva e da política monetária. A análise do Financial Times sobre o plano de setembro destacou preocupações com inflação, imóveis e endividamento das famílias, além da possibilidade de a alta dos semicondutores não se manter indefinidamente.

Lee afirmou que o déficit fiscal projetado para 2027 cairia para 0,1% do PIB, contra 3,9% em 2026, e que a dívida pública recuaria de 51,6% para 48,3% do PIB. São projeções do governo, não resultados auditados. Elas dependem de arrecadação, crescimento e execução orçamentária.

O que muda para o Brasil e para o mercado mundial?

O orçamento sul-coreano sinaliza que a disputa por IA deixou de envolver apenas empresas de software. Governos estão tentando garantir semicondutores, infraestrutura elétrica, centros de dados e formação técnica. Para o Brasil, isso pode representar oportunidades em serviços digitais, energia e cadeias de fornecimento, mas não há impacto direto mensurável sobre preços nacionais anunciado neste pacote.

Empresas brasileiras que compram equipamentos de informática ou contratam serviços em nuvem devem acompanhar a disponibilidade de memória e capacidade de processamento. Já investidores precisam distinguir o crescimento das vendas de chips do retorno financeiro efetivo de projetos públicos e privados. Um orçamento maior, isoladamente, não garante produtividade ou lucro.

O debate também reforça a importância de políticas industriais com metas verificáveis: cronogramas de entrega, infraestrutura, treinamento de trabalhadores, fiscalização de gastos e avaliação dos benefícios regionais.

Próximos passos: o que ainda precisa acontecer?

O Parlamento deverá analisar o texto orçamentário e poderá modificar valores e prioridades. Além disso, projetos de semicondutores, robótica e centros de dados precisarão passar de anúncios para contratos, obras e operação. O acompanhamento deve observar a votação do orçamento, os desembolsos efetivos, o avanço das instalações e a evolução das exportações.

Em síntese: Lee Jae-myung pediu apoio a uma proposta recorde de 820,9 trilhões de won para 2027, com 21,3 trilhões voltados ao conjunto de IA e megaprojetos tecnológicos. A estratégia pretende transformar a prosperidade dos chips em ganhos econômicos mais amplos, mas depende de aprovação legislativa e enfrenta riscos de execução e de mercado.

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Fontes, data e transparência

Apuração publicada em 2 de novembro de 2026, com base no discurso presidencial coberto pela Reuters e nos documentos oficiais do orçamento apresentados em setembro. Os valores ainda são propostas. As fotografias são de arquivo, com autores e licenças identificados individualmente; não foram usadas como prova visual do discurso de hoje.

Palavra-chave principal: orçamento da Coreia do Sul 2027. Conteúdo original e informativo, não é recomendação de investimento.


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