COP17: só 39% de 142 países citam patrimônio mundial em relatórios de biodiversidade, aponta estudo

Mundo, Cultura e Turismo • Meio ambiente • 27 de outubro de 2026

Um levantamento apresentado durante a COP17 mostra que 56 dos 142 relatórios nacionais analisados mencionam explicitamente o Patrimônio Mundial. Entenda o que o dado mede, por que importa para a proteção da natureza e como o turismo entra nessa discussão.

Cataratas do Iguaçu vistas do Brasil, com quedas-d'água e mata
Foto: MurielDamiana / Wikimedia Commons Arquivo e atribuição · CC BY-SA 4.0. Imagem ilustrativa; não representa a reunião da COP17.
Em resumo
A nota técnica da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da IUCN, elaborada com o Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO, analisou 142 relatórios nacionais. Em 56 deles (39,4%) há menção explícita ao Patrimônio Mundial. Isso não significa que os demais países não protejam seus sítios: o indicador mede o que foi registrado nos documentos examinados.

Uma nova avaliação divulgada nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, no contexto da 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), em Yerevan, na Armênia, coloca em evidência uma lacuna na maneira como países registram suas políticas de conservação. A pesquisa identificou referências explícitas à Convenção do Patrimônio Mundial em menos da metade dos relatórios nacionais examinados.

O achado chama atenção porque sítios naturais reconhecidos pela UNESCO concentram espécies ameaçadas, ecossistemas importantes e atividades econômicas que dependem da conservação. A reportagem foi baseada na publicação oficial do Centro do Patrimônio Mundial e em documentos da Convenção sobre Diversidade Biológica.

O que a UNESCO e a IUCN avaliaram na COP17?

A nota técnica se chama Recognising World Heritage in the Kunming–Montreal Global Biodiversity Framework. Foi preparada pela Comissão Mundial de Áreas Protegidas (WCPA), vinculada à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em parceria com o Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO. O objetivo foi investigar como a Convenção do Patrimônio Mundial aparece nos relatórios de implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming–Montreal.

Os pesquisadores analisaram 142 relatórios nacionais enviados à Convenção sobre Diversidade Biológica. Desse conjunto, 56 países fizeram referência explícita ao Patrimônio Mundial, o equivalente a 39,4%. As menções apareceram em conexão com as 23 metas globais, embora a associação mais forte tenha sido com a Meta 3, dedicada a áreas protegidas e conservadas.

Há uma diferença importante entre mencionar um programa em um relatório e executar políticas eficazes. A ausência de referência explícita não prova falta de conservação, e uma menção não garante que a proteção no território seja suficiente. A pesquisa identifica uma oportunidade de melhorar a integração institucional, o acompanhamento e a transparência.

Os principais números — e como interpretá-los

IndicadorResultadoO que significa
Relatórios analisados142Base documental do estudo
Com menção explícita56 (39,4%)Referência ao Patrimônio Mundial
Metas relacionadas23Conexões identificadas no conjunto das metas
Espécies ameaçadasMais de 20 milHabitats encontrados em sítios mundiais, segundo UNESCO/IUCN

Os dois últimos indicadores têm naturezas diferentes: as 23 metas descrevem a abrangência temática das referências nos relatórios, enquanto o número de espécies ameaçadas vem de levantamento anterior da UNESCO e IUCN sobre a biodiversidade abrigada em sítios do Patrimônio Mundial. Não se deve somá-los ou interpretá-los como resultados de uma mesma contagem.

O que é a Meta 3, conhecida como 30 por 30?

O Marco Global de Biodiversidade de Kunming–Montreal, adotado em 2022, estabelece 23 metas de ação até 2030. A Meta 3 prevê conservar e gerir efetivamente pelo menos 30% das áreas terrestres e de águas interiores e 30% das áreas marinhas e costeiras até o fim da década. O compromisso não se limita a desenhar áreas em mapas: exige representatividade ecológica, conectividade, gestão eficaz e governança equitativa.

A orientação oficial da Convenção sobre Diversidade Biológica também reconhece territórios indígenas e tradicionais quando aplicável e determina respeito aos direitos das comunidades. Por isso, a criação ou ampliação de áreas protegidas não pode ser tratada como sinônimo de exclusão automática das pessoas que vivem nesses territórios.

O Patrimônio Mundial não substitui parques nacionais, reservas, leis ambientais ou políticas locais. Ele acrescenta um mecanismo internacional de reconhecimento, cooperação e monitoramento para lugares de valor universal excepcional. Integrar melhor esses instrumentos pode facilitar o planejamento e evitar que diferentes órgãos trabalhem com informações desconectadas.

Lago do Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, Croácia, com floresta e barcos
Foto: Crowanderers / Wikimedia Commons (imagem reduzida a 1280 px) Arquivo e atribuição · CC BY-SA 4.0. Imagem ilustrativa; não representa a reunião da COP17.

Por que patrimônio cultural também importa para a biodiversidade?

O estudo destaca que paisagens culturais, lugares sagrados, cidades históricas e sítios mistos podem contribuir para a conservação. Em muitos territórios, técnicas de manejo, conhecimentos tradicionais, práticas agrícolas e relações espirituais com a paisagem ajudam a manter recursos naturais e formas de vida. A relação não é automática: os efeitos dependem de contexto, participação comunitária e qualidade da gestão.

A UNESCO aponta que as menções nacionais se concentraram na designação e administração dos sítios. Ferramentas de acompanhamento, cooperação internacional e mecanismos de apoio receberam menos atenção nos documentos. Para os autores, isso indica espaço para ampliar o uso de instrumentos já existentes, em vez de depender apenas da criação de novos títulos ou selos.

A participação de povos indígenas e comunidades locais é central. Políticas que tratam moradores apenas como beneficiários passivos podem perder conhecimento ambiental e criar conflitos. Já processos de decisão transparentes, com direitos reconhecidos, tornam mais viável conciliar preservação, identidade cultural e atividades econômicas sustentáveis.

Turismo e economia: por que os destinos devem acompanhar a discussão?

A conservação também interessa a hotéis, guias, transportadoras, restaurantes e pequenos negócios de destinos naturais e culturais. Trilhas, cachoeiras, florestas e paisagens atraem visitantes, mas sua qualidade pode ser comprometida por erosão, resíduos, falta de saneamento, pressão sobre fauna e excesso de circulação em áreas frágeis.

Segundo a página de Patrimônio Natural da UNESCO, mais de 90% dos sítios naturais listados geram empregos e renda associados a turismo e recreação. Trata-se de um dado descritivo da rede, não de uma promessa de retorno financeiro para cada destino. A proteção do ambiente é uma condição importante para que a atividade turística permaneça viável ao longo do tempo.

Na prática, gestores podem acompanhar indicadores como volume de visitantes por trilha, qualidade da água, descarte de resíduos, impacto em espécies sensíveis, distribuição de receitas e participação de trabalhadores locais. Empresas do setor podem apoiar a conservação por meio de informação ao visitante, contratação local, respeito às regras de acesso e comunicação clara sobre impactos ambientais.

E o Brasil? O que o levantamento permite afirmar

O Brasil reúne paisagens naturais reconhecidas internacionalmente, como a região das Cataratas do Iguaçu, e experiências que relacionam patrimônio, conservação e turismo. Esses lugares ajudam a visualizar por que biodiversidade, economia regional e cultura não são assuntos separados. As fotografias desta reportagem ilustram essa conexão, mas não documentam a COP17 nem representam uma lista de países avaliados.

O comunicado de 27 de outubro não apresenta, em seu resumo público, uma classificação individual do Brasil entre os 56 países que fizeram menção explícita. Portanto, não é correto concluir a partir dele que o país integra ou não esse grupo. Para avaliar o desempenho brasileiro, é necessário examinar seu relatório nacional e os dados de implementação das metas, não apenas o percentual agregado.

Para o leitor que planeja viajar, uma atitude útil é consultar os canais oficiais do parque ou sítio antes de comprar passeios, conferir regras de visitação, escolher operadores regulares e evitar atividades que perturbem animais ou áreas restritas. O cuidado cotidiano não substitui políticas públicas, mas reduz impactos individuais.

Perguntas frequentes

A UNESCO disse que 61% dos países não protegem a natureza?

Não. O percentual complementar corresponde aos relatórios examinados sem referência explícita ao Patrimônio Mundial. O estudo não mede diretamente toda a proteção ambiental realizada por esses países.

A COP17 criou uma nova obrigação de proteger 30% do planeta?

Não. A meta global de conservar pelo menos 30% até 2030 já integra o marco adotado em 2022. A novidade de 27 de outubro de 2026 é a avaliação sobre como o Patrimônio Mundial aparece nos relatórios nacionais.

Patrimônio Mundial e parque nacional são a mesma coisa?

Não. Parque nacional é uma categoria de proteção definida por cada país. O reconhecimento como Patrimônio Mundial decorre de uma convenção internacional e pode abranger áreas naturais, culturais ou mistas. As classificações podem coexistir.

O estudo prevê aumento do turismo?

Não. O documento discute integração de políticas e conservação. Qualquer previsão de crescimento de visitantes ou receitas exigiria pesquisa econômica específica, que não está no comunicado analisado.

Fontes e transparência editorial

Leia também no VSFast: UNESCO lança quadrinho sobre manguezais da América Latina e UNESCO testa plano climático em Santo Domingo.

Quer entender a meta global de conservação?

Consulte o texto oficial da Meta 3, compare os compromissos com a gestão real dos destinos e compartilhe informações verificadas sobre conservação e turismo responsável.

Consultar a Meta 3 oficial ↗

Atualizado em 27 de outubro de 2026. Reportagem informativa baseada em documentos públicos; não é publicidade de destinos ou serviços.


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