Vidro romano de 1.600 anos é recriado: veja por que a Taça de Licurgo muda de cor

Ciência, cultura e tecnologia | 28 de outubro de 2026

Pesquisadores da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, conseguiram reproduzir o efeito óptico de uma peça romana do século IV que parece verde sob luz refletida e vermelha quando iluminada por trás. O resultado reúne história, nanotecnologia e arte em vidro.

A descoberta foi anunciada pela Universidade de Sheffield em 26 de outubro de 2026. A equipe desenvolveu uma formulação reproduzível de vidro dicróico inspirada na Taça de Licurgo, objeto preservado pelo British Museum, em Londres. O trabalho não significa que a técnica exata usada pelos artesãos romanos tenha sido recuperada sem dúvidas: a composição foi recriada com experimentos e conhecimento científico contemporâneo.

O mesmo vidro, duas aparências: veja as fotos da taça romana

As fotografias abaixo mostram o objeto histórico no British Museum em condições distintas de iluminação. Elas não retratam a nova escultura produzida em Sheffield.

Dica de leitura: toque em cada fotografia para abrir uma versão maior. A cor percebida depende da luz e também da reprodução da imagem na tela.

O que a Universidade de Sheffield conseguiu reproduzir?

A Taça de Licurgo é um raro exemplo de vidro romano do século IV, conhecido como vidro dicróico. Seu comportamento é surpreendente: sob iluminação refletida, a peça adquire aparência verde-jade; com luz atravessando o material, apresenta tonalidade vermelho-rubi. O fenômeno já era estudado, mas produzir vidro com cores próximas às do original e com um processo repetível era um desafio.

A técnica anunciada em outubro foi desenvolvida pela pesquisadora e técnica de laboratório Lisa Hollands, da Escola de Engenharia Química, de Materiais e Biológica da Universidade de Sheffield, com colaboração de especialistas em vidro romano. O material foi produzido em quantidade suficiente para que o artista Elliot Walker criasse uma escultura contemporânea inspirada na peça antiga.

O anúncio universitário usa a expressão “primeira vez em 1.600 anos” para descrever a reprodução do efeito em quantidade. É importante contextualizar: já houve tentativas modernas de obter vidros semelhantes. O avanço apresentado é a qualidade e a repetibilidade da nova formulação, não a primeira observação científica de que metais podem alterar a cor do vidro.

Em resumo
  • Peça original: Taça de Licurgo, artefato romano do século IV.
  • Instituição da pesquisa: Universidade de Sheffield, Reino Unido.
  • Anúncio: 26 de outubro de 2026.
  • Efeito: verde na luz refletida e vermelho na luz transmitida.
  • Próximo passo público: exibição de uma nova escultura em novembro de 2026.
Leia mais: o segredo das cores

Como o vidro romano muda de verde para vermelho?

A explicação está na interação da luz com partículas metálicas minúsculas presentes no vidro. Especialistas atribuem o efeito da peça romana à presença de pequenas quantidades de ouro e prata, capazes de formar estruturas na escala dos nanômetros. O tamanho, a forma, a composição e a distribuição dessas partículas alteram quais comprimentos de onda são absorvidos e espalhados.

Quando a iluminação incide pela frente e retorna ao observador, a aparência tende ao verde. Quando a luz atravessa o vidro, a transmissão favorece tons avermelhados. Esse comportamento não depende de um interruptor, pigmento eletrônico ou tela digital: é uma propriedade óptica do material.

O que significa “dicróico”?

O termo descreve materiais que exibem cores distintas conforme a forma como a luz os atravessa ou é observada. No caso da Taça de Licurgo, o contraste mais conhecido ocorre entre luz refletida e transmitida. Isso difere de um vidro simplesmente pintado de duas cores ou de um vidro termocrômico, que muda de aparência com a temperatura.

CaracterísticaVidro comum coloridoVidro dicróico inspirado na Taça de Licurgo
AspectoCor relativamente estávelContraste entre luz refletida e transmitida
MecanismoCorantes ou composição do materialInteração óptica com nanopartículas metálicas
ExemploVidro verde convencionalVerde-jade e vermelho-rubi em diferentes iluminações
Controle de produçãoDepende da formulaçãoExige controle rigoroso de composição e condições de fusão

É um caso especialmente interessante para a ciência dos materiais: uma peça feita há aproximadamente 16 séculos já explorava, de modo artesanal, fenômenos que hoje são estudados com instrumentos de nanotecnologia e fotônica.

O caminho até a nova receita: fornos, oxigênio e metais

Segundo a universidade, Hollands pesquisou o conhecimento disponível sobre vidro romano com a professora Caroline Jackson e preparou uma base com materiais atuais que imitasse composições históricas. A etapa mais difícil foi introduzir ouro e prata de forma a produzir a resposta óptica desejada.

Os experimentos envolveram diferentes tipos de forno, matérias-primas e condições de oxigênio; a equipe testou até a inclusão de açúcar durante o desenvolvimento. Isso demonstra por que o resultado não pode ser reduzido à frase “basta colocar ouro e prata no vidro”. A química do forno, o resfriamento e a formação das partículas influenciam o efeito final.

A pesquisa também ajuda a evitar uma interpretação anacrônica. Não há evidência de que artesãos romanos conhecessem conceitos modernos como nanopartículas ou espectroscopia. Eles podiam dominar processos empíricos sofisticados por meio da experiência prática, mesmo sem as explicações científicas usadas atualmente.

Quem foi Licurgo e por que a taça é tão rara?

A peça pertence à categoria dos diatreta, vasos de vidro com decoração vazada ou em relevo, nos quais figuras parecem se destacar da superfície. A Taça de Licurgo representa um episódio mitológico ligado ao rei trácio Licurgo e ao deus Dioniso, com personagens envolvidos por videiras.

O catálogo do British Museum identifica o objeto como um copo de vidro do período romano tardio, datado do século IV, com detalhes e suportes de metal dourado. A universidade afirma que aproximadamente 40 exemplares desse tipo de taça sobreviveram e destaca o caráter singular do efeito de cor do objeto.

Mais do que uma curiosidade visual, o artefato combina escultura, controle de materiais e narrativas religiosas e culturais do mundo romano. Sua preservação permite que arqueólogos, historiadores da arte e engenheiros façam perguntas diferentes sobre uma mesma peça.

Onde ver a escultura inspirada na Taça de Licurgo?

A nova obra do artista Elliot Walker está programada para estrear no Festival of the Mind, da Universidade de Sheffield, entre 6 e 15 de novembro de 2026, na Millennium Gallery, em Sheffield, Inglaterra. Depois, a instituição prevê sua apresentação permanente no Turner Museum of Glass, ligado à universidade.

É essencial distinguir os locais: a Taça de Licurgo original pertence à coleção do British Museum, em Londres; a peça moderna é uma escultura separada, produzida para demonstrar o efeito do vidro recriado. Antes de viajar, confira horários, ingresso e disponibilidade diretamente nos canais oficiais do festival.

O que essa descoberta pode ensinar à tecnologia atual?

A recriação tem valor imediato para a história da tecnologia e para o trabalho artístico com vidro. A equipe também relaciona o conhecimento sobre a formação de partículas e cristais em vidros à pesquisa de novos materiais fotônicos. No entanto, isso não significa que a nova receita já tenha sido transformada em um produto comercial ou que existam aplicações médicas e energéticas comprovadas decorrentes diretamente dessa peça.

Conforme o comunicado da universidade, o projeto está ligado a pesquisas sobre materiais que interagem com a luz e ao estudo de vidros avançados, inclusive para imobilização de resíduos radioativos. O aprendizado está no controle da estrutura do material durante sua produção — uma área em que ciência básica, engenharia e artesanato se encontram.

Para quem acompanha a evolução dos materiais e das tecnologias, vale ler também no VSFast a reportagem sobre novos materiais semicondutores e investimentos em chips. Em outra frente, veja como a UNESCO discute autenticidade e preservação de patrimônio no Vietnã.

Perguntas frequentes sobre a Taça de Licurgo

A Taça de Licurgo é feita de ouro?

Não. A peça é principalmente de vidro. Pequenas quantidades de ouro e prata estão associadas ao efeito óptico; a taça também possui componentes metálicos decorativos.

Os romanos inventaram a nanotecnologia?

O artefato demonstra o uso de um fenômeno que hoje explicamos por nanopartículas, mas não comprova que seus fabricantes possuíam o conceito científico moderno de nanotecnologia.

A universidade recriou a taça original?

Não. Os pesquisadores reproduziram o comportamento óptico do vidro e o material foi usado em uma nova escultura. O objeto romano original permanece distinto.

O vidro muda de cor com calor?

Não é esse o mecanismo descrito. A mudança percebida depende principalmente da relação entre a luz incidente, a luz transmitida e as partículas presentes no material.

Quando o público poderá ver a nova obra?

A estreia foi anunciada para 6 a 15 de novembro de 2026, durante o Festival of the Mind, em Sheffield. Confirme a programação oficial antes da visita.

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Fontes e créditos

Apuração principal: Universidade de Sheffield, comunicado de 26/10/2026; British Museum, ficha da Taça de Licurgo; Archaeology Magazine, 27/10/2026; Festival of the Mind, programação.

Imagens históricas: duas fotografias de Vassil publicadas no Wikimedia Commons sob licença CC0 1.0, com links individuais nas legendas. Não foram utilizadas imagens protegidas da escultura contemporânea. Texto original, com síntese e contextualização das fontes. Atualizado em 28/10/2026.


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