INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL • EMPRESAS • PRODUTIVIDADE
A IA já melhora tarefas individuais, mas ainda não aparece de forma ampla nos lucros
Uma análise da Apollo encontrou receita por trabalhador e margens em alta nas sete maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos, enquanto esses indicadores permanecem praticamente estáveis nas outras 493 companhias do S&P 500.
O contraste não prova que a inteligência artificial fracassou. Ele mostra que usar IA e transformar esse uso em resultado financeiro são etapas diferentes — e que a segunda continua rara fora do setor de tecnologia.

O alerta da Apollo sobre a inteligência artificial nas empresas
Em nota publicada em 24 de outubro de 2026, Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management, afirmou não encontrar sinais de retorno financeiro amplo da IA fora do setor de tecnologia. A leitura compara as chamadas “Magnificent Seven” — grupo que reúne as maiores empresas americanas de tecnologia — com as outras 493 companhias do índice S&P 500.
Segundo os gráficos apresentados, a receita por trabalhador e as margens de lucro subiram no grupo tecnológico, mas ficaram praticamente estáveis no restante do índice. Slok também argumenta que ainda não há evidência macroeconômica clara de aceleração da produtividade atribuível à IA.
Big Techs
Receita por trabalhador e margens avançam.
S&P 493
Os mesmos indicadores continuam quase estáveis.
Questão central
Como converter eficiência local em crescimento e lucro?
Por que a análise não é um veredito contra a IA
A Apollo apresenta uma interpretação de dados agregados, não um experimento capaz de isolar causa e efeito. Uma empresa pode melhorar atendimento, reduzir erros ou acelerar desenvolvimento sem que isso apareça imediatamente na margem total. Juros, salários, energia, competição e demanda também afetam o resultado.
Os dados oficiais dos Estados Unidos mostram que a produtividade do setor empresarial não agrícola cresceu 1,4% no segundo trimestre de 2026. O número confirma algum avanço, mas não permite atribuí-lo diretamente à IA. Por isso, é mais seguro dizer que o efeito macroeconômico ainda é difícil de separar — não que a tecnologia tenha produzido benefício zero em todos os casos.
Leitura correta: a tese da Apollo é um alerta sobre a distância entre adoção e retorno agregado. Ela não elimina ganhos específicos já medidos em equipes, funções ou empresas.
A lacuna entre produtividade individual e lucro empresarial
A pesquisa global de IA da McKinsey ajuda a explicar a contradição. Oito em cada dez participantes disseram que a IA melhorou sua produtividade individual, e metade relatou decisões melhores. Porém, apenas 37% associaram a tecnologia a algum impacto positivo no EBIT — o lucro operacional antes de juros e impostos.
O grupo de alto desempenho é ainda menor: cerca de 6% dos participantes atribuem à IA pelo menos 5% de impacto no EBIT e classificam o valor como significativo. Essas empresas têm uma característica comum: redesenham processos inteiros, em vez de simplesmente adicionar um chatbot ao fluxo antigo.
| Métrica | O que demonstra | O que não demonstra |
|---|---|---|
| Horas economizadas | Eficiência de uma tarefa | Lucro ou receita adicional |
| Uso de ferramentas | Adoção | Qualidade do resultado |
| Receita por trabalhador | Produtividade financeira | Causa exclusiva da melhora |
| Margem operacional | Efeito no negócio | Valor de benefícios não financeiros |
Onde os custos da IA começam a pesar

O preço de uma assinatura é apenas a parte visível. O custo real inclui integração com sistemas, limpeza de dados, segurança, revisão humana, treinamento, consumo de tokens e correção de respostas erradas. Em agentes capazes de executar ações, entram também controles, testes e trilhas de auditoria.
Na pesquisa da McKinsey, 20% dos participantes disseram que custos operacionais relacionados à IA já limitam o uso. Ainda assim, 60% esperam ampliar o investimento no próximo ano. O resultado é uma pressão crescente para provar quais projetos merecem escala e quais devem ser encerrados.
Esse debate se conecta à corrida por infraestrutura. O VSFast mostrou como data centers de IA estão impulsionando novas fontes de energia e como a SpaceX captou dívida para comprar GPUs. A conta do usuário final inclui, direta ou indiretamente, esse capital intensivo.
Como medir o retorno da IA de forma útil
- Defina uma linha de base. Registre tempo, custo, taxa de erro e satisfação antes da implantação.
- Escolha um resultado de negócio. Receita, custo evitado, conversão, prazo de entrega ou retenção — não apenas número de prompts.
- Inclua o custo total. Licenças, tokens, integração, supervisão, retrabalho, segurança e treinamento.
- Compare grupos ou períodos. Sem um controle razoável, qualquer melhora pode ser atribuída à ferramenta errada.
- Meça qualidade e risco. Velocidade sem precisão pode transferir trabalho para revisão e aumentar exposição jurídica ou reputacional.
- Defina uma regra de parada. Pilotos sem melhora verificável precisam ser ajustados ou encerrados.
Estudos recentes de uso empresarial mostram adoção crescente e grande variação entre companhias, funções e níveis de senioridade. Isso reforça que não existe “ROI médio” aplicável a qualquer organização: o retorno depende do processo escolhido, da maturidade dos dados e da capacidade de mudar o trabalho.
O que empresas devem fazer agora
A resposta não é abandonar a IA nem acelerar todos os projetos. A estratégia mais defensável é concentrar recursos em poucos casos de uso com volume suficiente, problema claro e resultado mensurável. Atendimento repetitivo, análise documental, suporte interno e desenvolvimento de software podem funcionar — desde que o ganho sobreviva aos custos de verificação.
Empresas também devem evitar usar quantidade de acessos como sinônimo de produtividade. Um indicador melhor combina tempo poupado, qualidade, satisfação do cliente e impacto financeiro. Quando a tecnologia muda apenas a forma de produzir o mesmo resultado, o benefício tende a ser limitado. Quando permite novo produto, receita ou processo, o potencial aumenta.
O debate também exige prudência com empregos. O caso do Barclays e seu plano de eficiência apoiado por IA mostra que redução de custos e transformação organizacional já caminham juntas. Mas projeções de cortes não devem ser tratadas como resultado garantido: pesquisas anteriores superestimaram a velocidade das reduções efetivas.
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Antes de renovar qualquer ferramenta de IA
Escolha um processo, compare os números antes e depois e some todos os custos. Se o resultado não melhorar de forma verificável, redesenhe o fluxo ou interrompa o projeto — adoção sem valor não é transformação.
Fontes
- Apollo: No Signs of AI Payoff Outside the Tech Sector
- McKinsey: The State of AI in 2026
- U.S. Bureau of Labor Statistics: Productivity
- How Organizations Use AI: Evidence from ChatGPT
Publicado em 26 de outubro de 2026. Conteúdo informativo; não constitui recomendação de investimento ou consultoria financeira.
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