IA pode elevar economia da América Latina em 5,1%, mas transição no trabalho será decisiva, diz BID

A inteligência artificial pode acrescentar uma nova camada de crescimento à América Latina e ao Caribe na próxima década. Uma estimativa divulgada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aponta que a adoção da tecnologia pode elevar a produção econômica regional em 5,1% — mas o resultado dependerá principalmente de investimento, qualificação profissional e da capacidade de trabalhadores migrarem para atividades em expansão.

+5,1%

Potencial estimado de aumento da produção econômica regional em dez anos em um cenário de adoção de IA acompanhado por transição eficiente da força de trabalho, segundo informações do BID divulgadas em 21 de setembro de 2026.

Por que a estimativa chama atenção

O número coloca a IA no centro de uma questão que há anos desafia a região: produtividade. A América Latina possui mercados grandes, empresas digitais relevantes e uma população cada vez mais conectada, mas ainda convive com gargalos de infraestrutura, educação e investimento que dificultam transformar novas tecnologias em ganhos econômicos amplos.

Segundo a Reuters, com base nas projeções do BID, o cenário mais favorável pressupõe que trabalhadores consigam se deslocar para setores que crescem com a transformação tecnológica. Nesse caso, além do avanço da atividade econômica, os salários poderiam subir entre 2,3% e 5,3%.

O outro lado da projeção é importante: se essa realocação não ocorrer, o impacto distributivo pode ser severo, com queda salarial potencial de até 20,9% no cenário analisado. Isso não significa que os salários da região necessariamente cairão nessa magnitude; trata-se de uma simulação que evidencia quanto a adaptação do mercado de trabalho influencia o resultado final.

IA sozinha não garante crescimento

O próprio BID já vinha alertando que experimentar ferramentas de IA não é o mesmo que obter produtividade. Em análise publicada em julho, a instituição informou que cerca de 80% das empresas pesquisadas na América Latina e no Caribe já utilizavam ferramentas de IA, mas apenas 23% relatavam benefícios econômicos e somente 6% percebiam impacto significativo.

Essa diferença ajuda a explicar por que a adoção limitada produziria um ganho muito menor. De acordo com a projeção mais recente relatada pela Reuters, um cenário de implementação restrita poderia acrescentar apenas 0,3% à economia regional.

Quatro obstáculos que podem definir o resultado

1. Capacitação profissional

Empresas precisam de pessoas capazes não apenas de usar assistentes de IA, mas de integrar automação, análise de dados e modelos inteligentes aos processos reais de trabalho. O BID aponta lacunas importantes de competências digitais na região.

2. Infraestrutura digital

Conectividade, computação em nuvem, data centers e acesso confiável à internet continuam distribuídos de forma desigual. Segundo análise anterior do BID, entre 15% e 17% dos domicílios da região ainda não têm banda larga fixa.

3. Investimento empresarial

Comprar uma ferramenta não necessariamente muda produtividade. Os maiores ganhos tendem a exigir redesenho de processos, treinamento, integração de dados e acompanhamento dos resultados.

4. Transição entre empregos

Este é o ponto central da nova projeção. Se novas atividades crescerem enquanto trabalhadores de funções mais expostas à automação conseguirem migrar para elas, os ganhos podem se espalhar melhor pela economia. Sem essa ponte, a tecnologia pode ampliar diferenças de renda.

O que isso significa para o Brasil

O estudo trata da América Latina e do Caribe como região e, portanto, o percentual de 5,1% não deve ser interpretado como previsão específica para o PIB brasileiro. Ainda assim, o Brasil está diretamente inserido nos desafios apontados: qualificação, digitalização empresarial, infraestrutura e adoção produtiva da IA.

Para empresas brasileiras, a discussão mais relevante não é simplesmente quantas ferramentas de IA estão disponíveis, mas onde elas reduzem custos, aumentam produção, melhoram atendimento ou criam produtos que antes não eram economicamente viáveis.

IA também muda comércio e demanda por infraestrutura

A transformação vai além de software. Em setembro, o BID destacou que a cadeia global de IA depende de processadores, servidores, fibra óptica, sistemas elétricos e refrigeração. Isso abre oportunidades para países que participem das cadeias de equipamentos, energia, minerais críticos e serviços digitais.

O relatório macroeconômico de 2026 do BID também apontou digitalização, inteligência artificial e minerais críticos como oportunidades de crescimento para uma região que deve avançar apenas 2,1% neste ano segundo a projeção da instituição.

O ponto principal

A estimativa de 5,1% mostra o tamanho potencial da oportunidade, mas não descreve um ganho automático. A diferença entre uma transformação produtiva e uma onda de automação com benefícios concentrados estará na capacidade de governos, empresas, escolas e trabalhadores reduzirem as barreiras de qualificação, infraestrutura e mobilidade profissional.

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Fontes e leitura adicional

Reuters — projeções do BID sobre IA e economia da América Latina (21/09/2026)

BID — Will AI Boost Productivity or Widen Inequality?

BID — Perspectivas econômicas para América Latina e Caribe em 2026


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